domingo, 19 de abril de 2009

carta ;

'a verdade é que nós não somos tão parecidos assim, as óperas que gostamos são diferentes, teatro você nem gosta, ballet eu odeio. você mente para mim dizendo que me ama, e eu faço o mesmo. nos desencontramos no café da manhã e eu faço questão de fazer o mesmo nas outras refeições do dia. você diz que eu só penso no trabalho, eu digo que você não pensa em nada além de si mesma. nossos encontros sociais são terríveis quando você não pode abrir a boca para falar 'prazer em conhecê-lo', suas amigas são todas gananciosas, e eu não consigo olhar nos olhos delas. eu não entendo o que você diz, e você nunca tentou me entender. grito reclamando dos seus gritos. a verdade é que nós nunca nos entendemos, ou melhor, eu nunca quis ter esse dever de te entender. nosso quarto ainda é o mesmo, mas nossas noites não. você desconfia de todas, menos da que eu amo, e eu não desconfio, tenho certeza de todos. casou-se comigo por dinheiro, e eu casei com você para a sociedade não desconfiar. seus pais são maravilhosas pessoas, mas péssimos administradores; meu pai morreu e minha mãe também, se bem que ninguém sabe quem foi o responsável pela morte dela, e sinceramente, não duvido que você esteja no meio disso. seus olhos não são mais sinceros, os meus nunca foram para você. te aturava antes de se mudar para a minha casa, hoje não consigo olhar para você e não te odiar. sua possessão vai te matar um dia, na verdade eu não consigo entender o porquê dela, não sou eu quem deito com mais de um por semana. nós não temos filhos, e juntos não vamos ter; mas sempre tive vontade de ter um, mas não deixaria o trono para alguém com o teu sangue. eu não te faço rir e para o mundo somos o melhor casal da história, para nós, sabemos que somos os melhores atores. sua maquiagem não borra mais, e as águas já não conseguem lavar as suas mãos. sua coleção de veneno encontra-se nos menores frascos. eu tenho o dinheiro, você tem um certo poder invejoso. eu não consigo passar mais um dia sem perguntar o que ainda estamos fazendo juntos. sua convivência é tortura, tortura daquelas que se deseja a morte o mais rápido possível. mas eu amo. não a ti, tu sabes. mas eu amo. não engano, não pago nem cobro por isso, e unicamente amo. sei que já estará programando o 'falso suicídio' dela, mas saiba que com isso você estará programando o meu. e tudo finalmente acabará. não consigo mentir mais, você sabe, mas não consegue acreditar. Helena! o dia que ela entrou nessa casa segurando a mão do meu pai enquanto eu brincava nas escadas até hoje eu lembro, e desde o seu debutante eu a amo, e no nosso noivado quando disse a você que estava com dor de cabeça e iria dormir, eu subi ao quarto dela e percebi que não conseguiria viver sem ela. a verdade é que não nascemos um para o outro, você nasceu para o dinheiro, e eu nasci para amar Helena.'


2 comentários:

  1. o início me lembrou a música 'Casamento dos pequenos burgueses' da Ópera do Malandro;
    essa carta é terrivelmente linda.
    nunca tinha lido... é um filme ?
    amo voce.
    :*

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  2. caara, seus posts são sempre tão grandes! *o*
    ahioehaioehiae³
    e lindos, diga-se de passagem (y)

    saudades dassa :*

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